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Clodovil e a homofobia internalizada
Na sua coluna no caderno “Ilustrada” da Folha de S. Paulo do último dia 21 de março, Bia Abramo fez uma interessante análise sobre a polêmica envolvendo o apresentador de tevê Clodovil e a prefeita de São Paulo Marta Suplicy.
Comentando as raízes da fúria demonstrada pelo apresentador contra a prefeita, a jornalista lembra que esse antagonismo vem de muitos anos, do tempo em que ambos participavam do programa “TV Mulher” na Rede Globo.
E brilhantemente aponta: “Confortável no papel reservado pelo machismo mais tacanho aos homossexuais, ele cumpre à risca aquilo que se espera de uma”bicha”: sua persona televisiva é fofoqueira, venenosa, temperamental, fútil, vaidosa, misógina, etc. A condenação que faz da união civil homossexual, projeto de lei de autoria de Marta, quando deputada federal, vai no mesmo sentido que o pensamento mais retrógrado e menos tolerante”.
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Foto Divulgação / RedeTV! |
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Não assisti ao programa, não sei exatamente o que ele falou, mas concordo plenamente com a descrição que Bia Abramo faz de sua persona televisiva.
Num país onde praticamente não há modelos gay públicos e positivos, Clodovil, lançando mão de uma pretensa ambigüidade, reforça o que há de pior nos estereótipos associados aos homossexuais.
Com um discurso moralista e preconceituoso, representa o exemplo óbvio do homossexual que, internalizando toda a homofobia social, desenvolve aquilo que chamamos em psicologia de mecanismo psíquico de assimilação do grupo opressor. Ou seja, como forma de defesa, homossexuais, quase sempre de forma inconsciente, assumem os conceitos negativos a que foram expostos desde a infância e passam a desqualificar seus iguais.
Como resultado desse processo de alienação de si mesmos, costumam seguir pela vida com baixa auto-estima, apresentando vários sintomas psicológicos e emocionais. A imensa raiva alimentada pelo o sofrimento vivido tende a ser autodirigida e o resultado é, quase sempre, um coquetel “implosivo” de sentimentos de medo, vergonha e culpa.
Modelos públicos positivos servem como antídoto para essa situação e ajudam a criar um ambiente mais seguro e acolhedor para tantos jovens (e adultos) que enfrentam diariamente as lutas externas e internas na busca por uma sobrevivência digna.
É uma pena que ainda não tenhamos no Brasil alguém com a visibilidade e o espaço na mídia desfrutado por Clodovil e que possa contrabalançar os efeitos deletérios causados pelo apresentador. |